Tálamo

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Via-se numa posição clichê.

Sozinho, numa mesa de bar, bebendo. Sábado à noite. Único período que não trabalhava.

Uma dose atrás da outra. Demorara anos pra entender o porquê das pessoas beberem uma atrás da outra – mas agora podia perceber. O gosto amargo era fortemente enganado pela próxima dose. Esse ciclo, até certo ponto vicioso, lhe traria a bebedeira falsamente não desejada.

Não bebia por ser corno ou por falta de amante – aliás, se tinha algo que ele podia se gabar era a não quietação em sua cama. No começo, fazia questão de anotar o nome de cada uma (ou cada um, como desejar) que passava por lá no assoalho, em baixo do tálamo (isso quando sabia o nome). Porém o espaço lotou após um mês e meio, o que o fez desistir de continuar. Afinal, nunca iria parar pra ler quantas pessoas ele já havia tragado em seu tálamo.

Talvez esse fosse o motivo de sua caminhada. Ele insistia em achar que pensava melhor bêbado, mesmo sabendo que depois iria vomitar tudo que havia ingerido e apenas pensaria se dormiria no chão do banheiro mesmo ou em seu tálamo. Mas, mesmo assim, bebia para saber o motivo de tantas pessoas em seu tálamo, e ninguém no seu coração. Olhava seu reflexo no espelho que estava a sua frente. Via uma pessoa clichê. Sentia-se sem personalidade por não conseguir nem dar um rumo criativo na sua vidinha miserável.

Qual era a graça, afinal, de dormir com tantas mulheres? Com tantos homens? Às vezes sentia raiva de ser tão bonito. Aquele sorriso que ele tanto odiava, mas que as pessoas morreriam para ter. Toda vez que conseguia ver seu sorriso, via algo falso, totalmente irônico – uma ironia completando uma falsidade.

Seus músculos já estavam cansados de tanto falso prazer. Seu cérebro estava esfalfado de exigir tanto e não conseguir nada.

Pagou a conta e se levantou. Saiu do bar e caminhou até sua casa – do outro lado da rua. Entrou, foi para o banheiro e despejou os quarenta dólares gastos em bebida pela privada. Sem nenhuma vontade, levantou-se do chão do banheiro, foi para o quarto e se jogou em seu tálamo. Espiou por baixo do tálamo e viu todos os nomes.

Quis chorar.

Sentiu medo de não se conhecer. Pousou a cabeça no travesseiro e adormeceu. Sabia que o arrependimento passaria no dia seguinte, com algum cliente novo precisando urgentemente de seus serviços.

~ de Caio Spaolonzi em Março 7, 2008.

3 Respostas to “Tálamo”

  1. [Cycy aqui]

    Pqp, que foda! Amei o uso de “tálamo”, dificilmente leio ou ouço isso, e é uma palavra tão linda ;~
    E achei foda foda foda a construção toda do texto. Invejinha, xau. begos.

  2. amei demais amor/
    te amo, beigos.

  3. :O Cá putinha. Amei. amor/

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